Enron deixa uma interrogação societária como herança na CEGNão era bem essa a intenção. Mas ao decidir vender suas ações na CEG, a Enron acabou criando um problema daqueles para os demais acionistas da empresa, diga-se de passagem, seus desafetos de longa data. A questão é saber quem ficará com a parte do grupo americano e, conseqüentemente, assumirá o controle da empresa. Iberdrola, Gas Natural e Repsol - controladora da argentina Pluspetrol, dona de 4% do capital ordinário da empresa - estão angustiadas com a idéia de ver um "estrangeiro" desembarcar de uma hora para outra na CEG e tomar conta do pedaço. Por isso, estão tentando, de todas as maneiras, interferir na decisão da Enron. O trio quer que a companhia desista da idéia de negociar suas ações com um investidor externo. A Iberdrola, inclusive, se mostrou disposta a ficar com a parte dos americanos. O grupo está tentando persuadir a Enron a lhe dar o direito de preferência sobre suas ações. É provável, no entanto, que a trinca hispânica fique falando sozinha. Primeiro, porque a Enron tem indícios de que embolsará bem mais se vender suas ações para um grupo externo. Entre os principais candidatos, estão a Perez Companc e a TotalFinaElf. Além disso, como se não bastasse, não é de hoje que a harmonia passa longe na relação entre a Enron e seus sócios. Dificilmente seria agora, na hora da despedida, que americanos e espanhóis falariam a mesma língua. Desde que os quatro grupos assumiram a empresa, os choques se tornaram constantes. Em grande parte, devido à resistência da Enron em aceitar o estilo trator dos espanhóis, que sempre tentaram falar mais alto. Os desentendimentos dificultaram até a definição da estratégia da CEG. Os americanos sempre defenderam que a empresa se concentrasse na expansão do consumo industrial no estado e investisse na construção de térmicas a gás. O trio Iberdrola, Gas Natural e Repsol/Pluspetrol preferiu seguir o caminho das multiutilities, apostando na conversão do gás residencial e na compra de outras distribuidoras. No meio do terremoto, está o espanhol José Antônio Guillen, presidente da CEG, que, inclusive, tem os dias contados. Depois da venda da parte da Enron, ele deverá ser substituído por um executivo brasileiro. Na visão dos espanhóis, a mudança facilitaria um acordo com um eventual futuro sócio, caso não consigam mesmo evitar a chegada de um forasteiro. Planalto liga as turbinas de Angra 3Foi praticamente um parto a fórceps. Mas finalmente o governo deu uma prova concreta de que a usina nuclear Angra 3 vai sair do chão: o Planalto incluiu o projeto no Plano Plurianual. Já existe até mesmo uma verba aprovada pelo Congresso, no valor de R$ 60 milhões, o que soluciona um dos principais empecilhos para a viabilização da empreitada. Agora, depois destes dois atos, só mesmo uma trágica conjunção de fatores para impedir a construção da geradora. Sobretudo porque, nas últimas semanas, o governo avançou outras casas. Está definido que o projeto será dividido em três partes: a Eletrobrás será responsável por toda a coordenação, desde detalhes técnicos das obras até a supervisão do project finance. Como pagamento, receberá não apenas energia como, provavelmente, uma participação no negócio. Investidores nacionais que estão sendo contatados aportarão recursos para viabilizar a construção da usina. Como última perna deste tripé nuclear, surge a Siemens, convidada oficialmente pela Eletrobrás para fornecer a tecnologia da geradora. A presença do grupo alemão também ajuda a decifrar um dos enigmas de Angra 3: o nome do futuro operador. Apesar de outros fortes concorrentes, o consórcio formado pela Siemens e a francesa Framatome deve ser mesmo o escolhido para assumir o painel de comando da usina. Nos últimos dias, as negociações também avançaram em outro importante ponto. O governo teria oficializado aos bancos franceses e alemães que financiarão o projeto a proposta de parte do pagamento do crédito ser feito com a própria energia gerada em Angra 3. Este detalhe é um trunfo do Ministério de Minas e Energia para tocar a empreitada, pois dá ao Tesouro a garantia de que só começará a arcar com os custos da obra após a geradora entrar em funcionamento.
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Relatório
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