BNDES não separa
lucratividade do fomento

Poderia muito bem ser um desses produtores de clipping ou talvez um desses anotadores de classificados e anúncios, não fossem o ar distinto, o solene terno azul-marinho e a deferência toda especial das aeromoças, que lhe conferiam indiscutível autoridade. Os ponteiros marcavam exatamente 17h32min da última quarta-feira, quando o presidente do BNDES, Francisco Gros, entrou no avião da Varig, em Brasília, com destino ao Rio de Janeiro, vergado pelo peso da enorme maçaroca de jornais debaixo do braço esquerdo. O que tanto lia ou leria Gros, o RR não perguntou. Foi direto ao fundamental:

- É função do BNDES, um banco de fomento com "S" maiúsculo de social, realizar lucros tão excepcionais quanto os dos últimos anos?
Os lucros do BNDES são proporcionais ao tamanho do seu orçamento e respondem aos fatos de que deixamos de ser uma instituição voltada para operações hospitalares. E temos, hoje em dia, através da BNDESPar, uma carteira de participações bastante rentável.

- Então, o BNDES deve dar, neste ano, mais um lucro espetacular?
Eu não posso antecipar o resultado, mas o número é da ordem de grandeza do registrado nos ultimos anos (N.R. O BNDES teve lucro de R$ 810 milhões em 1998 e R$ 681 milhões em 1999). Pode ser até um pouco maior, devido ao aumento do orçamento.

- Mas, com esse resultado tão expressivo, talvez o governo devesse abrir o capital do BNDES ou, então, da própria BNDESPar, permitindo que a sociedade usufruísse desse rentabilíssimo banco de fomento?
O BNDES é uma instituição do governo, na qual a eventual lucratividade não é o alvo a ser perseguido. Além do mais, a BNDESPar participa do Conselho de todas as empresas das quais possui ações, detendo informações estratégicas e confidenciais, uma vez que é um híbrido de investidor institucional e órgão de fomento. Portanto, não poderíamos abrir para a participação do mercado.

- Mas, o banco pretende terceirizar a administração da carteira da BNDESPar? Já estamos terceirizando. Tem uma parte com o fundo Dynamo, outra com o Bradesco Templeton e uma terceira com o Banco Brascan. Até o fim deste ano e início de 2001, deveremos convidar mais instituições para a administração compartilhada dos investimentos.

Nem bem acabou de responder a esta última pergunta, Gros partiu célere em direção ao seu destino, andando de lado devido ao peso da jornalada, que deixava o seu ombro manque para a esquerda. Tortinho, tortinho. Sem distinção ideológica, a cena estimulou uma paráfrase dos dizeres do poeta: "Vai, Gros, vai ser gauche na vida".

relatório nº 1501-20/10/2000

 

 

 

Lion King

Os cães ladram e o leão permanece impávido e augusto. Everardo Maciel está mais firme do que uma rocha.

• A distribuidora catarinen-se Dal Choquio, com 57 postos, está entrando na cesta de compras da Repsol/YPF. Faltam pequenos detalhes para o acerto final.

Samuel, no!

Simon Alouan, sócio do Ponto Frio e um dos pretendentes às ações de Dona Lily Safra, teria feito uma especial recomendação à Goldman, Sachs, que cuida da operação. Negócio com Samuel Klein, das Casas Bahia, só se ocorrer uma catástrofe e as conversas com outros candidatos fracassarem.

• Alouan tem calafrios só de pensar na longínqua hipótese de compartilhar a gestão da casa com um velho concorrente.

• O governador potiguar Garibaldi Alves jogou a toa-lha. O leilão da Caern - a companhia de água do estado - foi empurrado para 2002. E olhe lá!

Terceira via

A Nörsk Hydro - que, no Brasil, já atua em mineração e fertilizantes - decidiu: vai entrar de cabeça nos próximos leilões de distribuidoras de energia. Na Noruega, o setor elétrico é um dos seus mais rentáveis negócios.

Passo a passo

Mal chegou ao país, a inglesa Marconi já tem toda a sua rota traçada. Foi só fechar a compra da fábrica de equipamentos de transmissão da Splice, acertada na semana passada, para ini-ciar as articulações em torno de um consórcio para as privatizações do setor.

Namoro na TV

A Portugal Telecom voltou a ciscar pelos lados do SBT On Line. Se caprichar na proposta, Sílvio Santos - que não suporta mais os prejuízos que o negócio vem despejando em seu baú - vende a empresa na hora.

Capital aberto

As alemães Steag e PLE e a Shell vão buscar novos sócios para o gasoduto que pretendem construir de Araraquara a Brasília. Os parceiros entrarão ainda nas térmicas que serão instaladas em Goiás e no Distrito Federal.

• Paolo Zaghen, presidente do Banco do Brasil, está pela bola sete.

Mimetismo

A Petrobras topou bancar a reforma da embaixada brasileira em Roma, mas desde que tudo seja feito na maior discrição. A estatal teme que, depois do escândalo da compra da embaixada em Berlim, qualquer tipo de mecenato diplomático seja mal-interpretado pelos oposicionistas de plantão.

• Rodolfo Landim, presidente da Gaspetro, partiu para cima da concorrência. Deixará a tarifa única de lado e reduzirá o preço cobrado para o transporte do gás no Bolívia-Brasil.

Pombo-correio

A americana CSW já teria dado o recado ao governo paulista: se boa parte da dívida da Cesp Paraná for devidamente lipoaspirada, entra no leilão. Caso contrário...

Cabine dupla

A americana Amsted negocia, em parceria com a Maxion, a compra de um fabricante de equipamentos ferroviários no eixo Rio-São Paulo.

 

 

 

 

 

 

 

Linha congestionada

Os tropeços financeiros e operacionais estão começando a minar as relações entre os sócios da Vésper. Os desentendimentos estariam concentrados no montante de investimentos a ser aportado na companhia e, sobretudo, na parte que cada acionista teria que alocar. A Bell Canada defenderia um aporte maior de recursos para agilizar a instalação de novos equipamentos, idéia que não teria o apoio dos demais sócios. Diante da resistência, ao contrário das especulações que surgiram na semana passada, os canadenses estariam mais dispostos do que nunca a aumentar seu quinhão no capital da empresa. Avançaria sobre as participações da Qualcomm e da argentina Libermann, que detêm, respectivamente, 16% e 12,5% da companhia.