Gerdau paga mais caro pela sua imagem e semelhança na Açominas

O empresário Jorge Gerdau vê mais-valia em detalhes de que até Deus duvida, não estivesse Deus, segundo o aforismo, nos detalhes. Essas minúcias, Gerdau traduz em valor. Em síntese, existem poucos tão capazes de brigar por um preço justo - para si - quanto ele. O problema é quando, do outro lado, também está um desses raríssimos oponentes. Neste caso, o impasse é inevitável. É exatamente o que está acontecendo nas negociações para a compra da participação de Ângelo Calmon de Sá na Açominas. Inicialmente, o ex-banqueiro teria avaliado as suas ações entre US$ 180 milhões e US$ 250 milhões. Porém, já estaria disposto a inflacionar este preço. Afinal, há vários investimentos em curso na siderúrgica que, fatalmente, impulsionarão o seu resultado. Jorge Gerdau discorda e acha que deve pagar bem menos, algo como US$ 100 milhões. E tem, na ponta da língua, os argumentos para sua decisão. Se para ficar com quase 36% da Açominas, a Gerdau gastou apenas US$ 170 milhões nas sucessivas capitalizações que fez na empresa, por que pagaria, na mais generosa das hipóteses, quase US$ 200 milhões por 17% da companhia, a parte que cabe a Calmon de Sá? A resposta está na súbita valorização da Açominas. O mais curioso é o efeito circular desta história. Jorge Gerdau está sendo vítima do seu próprio remédio, no caso, um medicamento que sarou boa parte dos males financeiros da empresa. Na época do primeiro aporte da Gerdau (de US$ 100 milhões), a Açominas estava avaliada em US$ 450 milhões. Além disso, vinha de um prejuízo de US$ 104 milhões em 1998, que se somou a perdas de US$ 138 milhões no ano passado. Porém, o sopro de vida dado por Gerdau virou a companhia de pernas para o ar. A Açominas teve lucro de US$ 60 milhões e geração de caixa de US$ 85 milhões no primeiro semestre deste ano. Uma siderúrgica vale, em média, sete vezes a sua capacidade anual de geração de caixa. Na hipótese da empresa repetir o desempenho no segundo semestre e fechar o ano em torno dos US$ 170 milhões, o seu preço justo seria algo como quase US$ 1,2 bilhão. Ou seja: em tese, a empresa ficou três vezes mais cara. Ironia da história: foi o próprio Gerdau quem ajudou a valorizar ainda mais as ações de Calmon de Sá. Agora, quem pariu Mateus que pague o seu preço. Há outros fatores que podem complicar ainda mais as negociações. A Açominas está expandindo o seu alto-forno, que passará de 2,7 milhões para 3 milhões de toneladas/ano. A companhia está investindo também na produção de perfis, estruturas metálicas utilizadas no setor de construção. Isso para não falar de que a empresa tem espaço físico preparado, inclusive já terraplenado, para produzir até 10 milhões de toneladas anuais. Portanto, não é de se estranhar que Ângelo Calmon de Sá não tenha a menor pressa em vender as suas ações. Já para Jorge Gerdau, das duas uma: ou desiste de aumentar a sua participação na Açominas - hoje, dentro do seu planejamento, algo praticamente impensável - ou, então, paga o preço que ele próprio ajudou a inflar.

 

relatório nº 1470 -5/09/2000

 

 

 

Em órbita

A argentina Perez Companc seria a mais nova pretendente à compra da Avipal. Aceitaria até a aquisição de uma participação minoritária.

• Alcides Tápias tem mirado firme no inflation target, mas vai acabar acertando no seu coração.

• A CVM estaria analisando uma operação que pode modificar todos os rumos do fechamento de capital da Bombril.

Curto-circuito

O governo paulista estaria entregando os pontos e desistindo de privatizar a geradora Emae. Os sérios problemas ambientais e financeiros praticamente a tornaram uma empresa "invendável".

Chiquititas

Nas últimas semanas, bateu nas nuvens a chance de Sílvio Santos vender uma fatia do SBT. Nada de Televisa ou alguma emissora americana. O parceiro da hora está bem ao lado do Brasil.

• A General Mills está engrossando o cordão de candidatos à compra de frigoríficos no país.

S.O.S

O grupo Lorentzen encampou a causa da Ideiasnet. Já se dispôs a investir em novos projetos e agora saiu à cata de um fundo de investimento estrangeiro que traga recursos para a companhia.

• A alemã Berliner Wasser está empenhada até a alma em montar um consórcio para o leilão da Embasa.

Sois rei, sois rei...

O empresário Carlos Alberto Mansur abre mão de parte do reino, mas não perde a realeza. Apesar de ter fechado ontem a transferência de 51% do Grupo Vigor, que inclui marcas como Leco e Flor da Nata, para a New Zealand Daily Board - maior exportadora de leite do mundo - conseguiu, através de acordo de acionistas, manter a presidência do grupo e o controle da gestão. Ou seja: mesmo minoritário, ainda manda no negócio. A operação foi fechada por US$ 234 milhões, divididos da seguinte maneira: US$ 151 milhões pagos cash e US$ 83 milhões de aumento de capital em até 36 meses. Com essa vigorosa injeção de capital, Mansur pretende voltar-se com mais atenção para o braço financeiro dos seus negócios, o Banco Industrial do Brasil, 100% de sua propriedade, que virou a menina dos seus olhos cheios de cifras.

Reprise

A dupla formada pela argentina Civilia e a Camargo Corrêa, que já arrematou a construção e operação da linha de transmissão Norte-Sul II, voltará à cena no leilão do trecho Tucuruí-Presidente Dutra, no Maranhão.

• O ABN-Amro vai dar as caras nos leilões da Banda C: está montando o project finance para a chegada de uma operadora alemã.

Água na boca

Enquanto não sacia a fome de varejo no Brasil, o Lloyds Bank vai matar sua sede em outros negócios: deverá participar ao lado da Anglian Water dos leilões das empresas estaduais de saneamento.

Entrada franca

A PSINet não sabe ainda se foi um bom negócio ter comprado uma batelada de provedores. A alta incidência de serviços gratuitos estaria downlodeando a rentabilidade da sua operação no país.